IV.
Lar Para Repouso
Ao caminharmos, pelo menos dois de nós refletíamos sobre o que havíamos
visto — e a sua significação. Nossa jovem amiga, que se chamava Rute, nos fez
várias perguntas, mas, esquivei-me de respondê-las, porquanto era também eu um
recém-chegado. Edwin — o nome do nosso amigo que até aqui omiti —
encarregar-se-ia de o fazer.
Rute nunca fora muito freqüentadora de igrejas enquanto viva, mas era
uma alma bondosa, como se podia ver, assim como era fácil ver que a ausência da
igreja não lhe acarretara diferença no destino. Suas ações a favor do próximo
tinham contribuído mais para o seu bem-estar espiritual do que toda a exibição
externa de religião, Assim como eu, ela também se surpreendia de ver, em
espírito, a completa coleção de acessórios da religião ortodoxa. Edwin
disse-lhe que até então havia ela visto apenas um exemplo, e que havia muitos
outros. Mas, tendo visto um, era o mesmo que ver todos. Cada seita, é claro, mantém seus próprios
credos e formulários, tal como na terra, com
muito pou< diferença, como acabávamos de ver.
Tal sonolência espiritual não é novidade no reino dos espíritos. O mundo
é o culpado disso. As controvérsias religiosas são a base de toda a ignorância
e falta de conhecimento que tanta gente traz para o mundo espiritual, e, desde
que a mente de tais pessoas é teimosa e realmente incapaz de pensar por si só,
então, elas se mantêm acorrentadas a suas estreitas opiniões, julgando-as
verdadeiras, até que um dia lhes vem o despertar espiritual. É quando verificam
que a escravidão mental as retardava. E é lamentável que a cada um que deixa
para sempre essas congregações mal-orien-tadas, outro substituto apareça — até
que chegue a hora de toda a terra conhecer a verdade sobre o mundo do espírito.
Evidentemente aqui não prejudicam a ninguém, visto que apenas estão retardando
o seu próprio progresso espiritual. Compreendendo o que estão fazendo a si
próprios, dão o primeiro passo firme para a frente e sua alegria é ilimitada. Compreenderão
então o tempo que aparentemente
desperdiçaram.
Agora, é caso de se perguntar: desde que com a aquisição da verdade e
do conhecimento, essas extensões de religiões terrenas ao mundo espiritual são
desnecessárias, o que devemos colocar em seu lugar? Isto poderia parecer uma
condenação à adoração comunal. — Absolutamente. Temos a nossa adoração comunal
aqui, mas ela é purificada de todos os traços de credos sem significado, de
doutrinas e de dogmas. Adoramos o Grande e Eterno Pai em verdade absoluta. | E
ninguém é forçado a crer cegamente — ou declarar que o faz — em algo que é
completamente incompreensível a qualquer mente. Aqui há muitas e muitas coisas
que não compreendemos — e levaria milhões de anos antes de termos a mais leve
sombra de entendimento. Mas não nos pedem que compreendamos, mas sim que as
aceitemos tal como são. Isso não influi em nada no progresso de nossa alma.
Poderemos progredir mais e mais sem necessidade de pensar em compreender.
Tais foram os
assuntos discutidos — era Edwin que os expunha — enquanto caminhávamos pelo
maravilhoso céu de Deus. Rute descobriu um imponente edifício, em terras
bem--arborizadas, que também despertou minha curiosidade. Apelamos para o
nosso guia, e Edwin nos contou que era um lar para repouso, destinado àqueles
que chegassem ao espírito depois de longa enfermidade ou que haviam tido
violento passamento. Indagamos se seria
possível dar uma espiada lá dentro, sem parecermos bisbilhoteiros. Êle assegurou-nos que seria muito fácil,
visto que prestara serviços lá, e era portanto persona grata. Além disso, tínhamos suficiente simpatia para banirmos qualquer idéia
de que éramos intrometidos. Ao nos
aproximarmos vimos que o edifício não se assemelhava em nada a um hospital,
qualquer que fosse a sua função.
Construído no estilo clássico, tinha dois ou três andares, e era
completamente aberto por todos os lados. Isto é, não possuía janelas, tais como
as conhecemos na terra. Era de material branco, mas imediatamente acima dele
via-se uma grande réstea de luz que envolvia a casa toda numa surpreendente
tonalidade azul. Q raio era doador de
vida — um raio com poderes
terapêuticos — mandado para os recém-chegados que ainda não
haviam despertado. Quando completamente restabelecidos para o mundo espiritual,
haveria um esplêndido despertar e eles seriam apresentados à sua nova terra.
Notei que havia muitas pessoas sentadas nos gramados ou passeando. Eram
parentes e amigos dos que estavam submetidos a tratamento no lar e cujo
despertar era iminente. Embora, sem dúvida, pudessem ser chamados no instante
necessário, eles seguiam o velho instinto terreno e preferiam esperar o feliz
momento, ali por perto. Estavam extremamente alegres e entusiasmados, como se
podia perceber pelas expressões dos semblantes, e muitos foram os sorrisos
amistosos que recebemos ao passar entre eles. Muitos também vinham ao nosso encontro
para nos dar as boas-vindas julgando que ali estávamos pelas mesmas razões. Ao
contar-lhes nossa real intenção, apressavam-se a deixar-nos caminho livre.
Observei que muitas
das pessoas que esperavam nos jardins não estavam com suas vestimentas
terrenas, e supus que já fossem espíritos há muito tempo. Mas não era esse o
caso, como explicou Edwin. Eles tinham o direito de usar suas roupas de
espírito em virtude de serem agora habitantes perenes do reino em que
estávamos. E essas roupagens eram eminentemente apropriadas tanto ao lugar como
à situação. Ê difícil descrevê-las porque depende de conseguirmos ou não
compará-las a algum tecido terreno. Aí não há esses materiais, e toda aparência
externa é produzida não pela consistência do tecido, mas pela espécie e grau de
luz, que é a essência do manto. Os que víamos agora eram de vaporosa forma e
compridos, e as cores — azul e rosa de vários tons — pareciam entremear-se em
toda a substância do manto. Pareciam muito confortáveis, e, como tudo aqui, não
necessitam cuidados para conservarem-se em
perfeito estado, sendo suficiente a própria espiritualidade do seu portador.
Nós três estávamos
ainda usando o estilo mundano de vestimentas, e Edwin sugeriu que, para os fins
que tínhamos em vista, poderíamos
mudá-las agora. Eu estava mais do que disposto a aceitar qualquer sugestão sua,
e Rute também parecia ansiosa
por experimentar essa mudança; mas o que nos intrigava era como ela seria
feita.
Possivelmente há pessoas na terra prontas a acreditar que para sermos
formalmente apresentados em roupagem espiritual seria necessária uma cerimônia
na presença de um bom número de seres celestiais, vindos para testemunhar a
doação dessa recompensa celestial. Apresso-me a dizer muito enfaticamente que
não foi isso que aconteceu.
O que realmente sucedeu foi o seguinte: assim que expressei o desejo de
desfazer-me das roupas terrenas, elas se desvaneceram — dissolvidas — e
achei-me envolto em meu especial manto espiritual, igual aos que via em meu
redor, O de Edwin também fora
mudado da mesma maneira, e notei que irradiava mais luz do que o meu e de Rute;
ela, é
desnecessário dizer, estava encantada com esta nova manifestação do
espírito. Meu velho amigo, que já passara por tal experiência, estava
imperturbável; mas no meu caso e no de Rute, tudo era novo, e no entanto não
sentimos o mais leve embaraço ou acanhamento diante desta, por assim dizer,
revolucionária alteração na aparência externa. Pelo contrário, ela parecia-nos
natural e de acordo com o nosso atual ambiente, e muito mais ainda, quando
entramos na casa de repouso. Nada seria mais incongruente do que aparências
terrenas em tal moradia, que em sua disposição interior e acomodações, era
totalmente diferente do que víramos na terra.
Ao entrarmos, Edwin foi recebido por alguém, como velho amigo. Explicou
sua missão e nossa presença ali, ao que nos deram as boas-vindas e liberdade
para observarmos tudo o que quiséssemos.
Um vestíbulo externo conduzia-nos a um outro, interno, de consideráveis
dimensões. O espaço que deveria ser destinado a janelas era ocupado por altos
pilares um pouco afastados uns dos outros, sendo idêntica a disposição nas
quatro paredes. Era mínima a decoração interior, mas não se suponha que o
aposento fosse frio como um quartel. Nada disso. O chão era coberto de macio
tapete em sóbrios desenhos, e aqui e ali, nas paredes, via-se uma tapeçaria
magnifi-camente trabalhada. Ocupando todo o espaço do chão, havia leitos
extremamente confortáveis e em cada um, um vulto deitado, imóvel e
aparentemente imerso em profundo sono. Vários homens e mulheres moviam-se
silenciosamente ao redor, ocupados em observar os vários leitos e seus
ocupantes.
Notei, logo ao entrar no salão, que ficamos sob a influência do raio
azul, e seu efeito era de renovação de energias e de tranqüilidade. Outra coisa
notável era a completa ausência de qualquer idéia de instituição, com os
inevitáveis inconvenientes de tudo que é oficializado. Os que assistiam os
adormecidos, faziam-no, não com a atitude de quem se desincumbe de uma tarefa a
esmo, mas como se realizassem
um puro trabalho de amor e com alegria. Era exatamente isso. O feliz
despertar daquelas almas adormecidas era uma alegria repetida para eles, bem
como para as pessoas que os tinham vindo ver.
Fiquei sabendo que todos os pacientes deste salão tinham sofrido prolongadas doenças antes do passamento. Logo
após a morte, eles são postos docemente em profundo sono. Em alguns casos o sono é
imediato — ou sem interrupção — à morte física. Longa doença anterior à entrada
no espírito tem um efeito debilitante sobre a mente, que por seu turno
influencia o corpo espiritual. Este último não é tão importante, mas a mente
requer absoluto descanso, de duração variável. Cada caso é tratado
individualmente, e, conseqüentemente reage a esse tratamento. J Durante o estágio a mente repousa
completamente. Não há sonhos desagradáveis, nem febres ou delírios.
Enquanto observava esta perfeita manifestação da Divina Providência,
vieram-me à idéia as absurdas noções terrenas de descanso eterno, sono da eternidade e muitas outras concepções, igualmente errôneas, e me pus a imaginar se
este sono que agora me era dado ver, não teria sido deturpado por mentes
terrenas, que o consideram um sono eterno, para o qual passam todas as almas ao
dissolver-se, e lá esperam, por infindáveis anos, o terrível último dia — o temido Dia do Julgamento. Aqui estava a
refutação visível de tão insensata crença.
Nenhum dos meus dois amigos tinha despertado neste ou qualquer outro lar
de descanso, disseram-me eles próprios. Como eu, não tinham sofrido prolongada
doença, e o fim de suas vidas terrenas tinha vindo rápida e agradàvelmente.
Os pacientes em seus leitos pareciam em paz. Observação constante era
mantida, e aos primeiros sinais de despertar da consciência, outros auxiliares
são chamados e tudo corre às mil maravilhas. Alguns despertam parcialmente e
retornam à sonolência. Outros sacodem o torpor, e é então que os experientes
espíritos que os assistem terão sua tarefa mais
difícil. Até esse
momento, de fato, foi só questão de vigilância e espera. Em muitos casos, é
necessário explicar ao recém--desperto que êle morreu e está vivo. Lembrar-se-ão geralmente
da longa doença, mas alguns desconhecem que passaram ao espírito, e quando a
verdade lhes é calma e docemente explicada, eles freqüentemente sentem desejos
de voltar à terra, talvez aos que os choram ou por quem eram responsáveis.
Dizem-lhes que não podem voltar e que outros com experiência tomarão conta dos
que os preocupam. O despertar assim, não é feliz, comparado com os que acordam
completamente ao par do que aconteceu. Fosse a terra mais instruída, e isto
seria mais comum, e haveria menos desgostos para aqueles que acordam.
O mundo terreno se julga muito adiantado, muito civilizado, mas tal
opinião é fruto da ignorância. O mundo terreno é considerado como de suma
importância e o mundo espiritual é olhado como algo vago e distante. E quando
finalmente uma alma aqui chega é mais do que tempo de se começar a preocupar.
Até então não havia necessidade de nos incomodarmos com esse assunto. Essa é a
atitude mental de milhares e milhares de almas encarnadas, e aqui, neste lar de
descanso, observamos quantas pessoas despertam de seu sono espiritual. Vimos
almas bondosas e pacientes tentarem convencer essas pessoas de que realmente morreram. E este lar é apenas um, dos muitos em
que o mesmo serviço está sendo levado a efeito, e tudo porque o mundo terreno é
tão mais superior em sabedoria!
Foi-nos mostrado outro salão similiar, onde havia pessoas cujo
passamento tinha sido repentino e violento. Esses casos eram geralmente mais
difíceis do que os que acabáramos de ver. O passamento súbito acrescentava
confusão a suas mentes. Em vez de uma gradual transição, o corpo espiritual em
muitos casos é separado à força do corpo físico, e precipitado no mundo dos
espíritos. O passamento foi tão repentino que lhes parece não haver solução de
continuidade em suas vidas. Essas pessoas são cuidadas rapidamente por grupos
de almas que devotam todo o seu tempo e energia a
tal trabalho. E agora, aqui, podíamos ver o resultado de tal labor.
Asseguro-vos que não é uma visão agradável a dessas pacientes almas
lutarem mentalmente — e às vezes quase fisicamente — com pessoas que ignoram
que estejam mortas. É até triste, posso afirmá-lo, porque fui testemunha. E quem é o culpado
por tal estado de coisas? Muitas dessas almas culpam-se a si mesmas, depois de
estarem aqui o suficiente para apreciarem sua nova condição, ou culpam o mundo
que deixaram recentemente, por tolerar tal cegueira e estupidez.
Quando Edwin observou que já tínhamos visto o suficiente, tanto Rute
como eu partimos sem lamentar. Deve-se lembrar que éramos, ambos,
recém-chegados e não tínhamos ainda suficiente experiência para suportar
espetáculos que pudessem ser penosos. Por isso passamos novamente ao ar livre,
tomamos um caminho que beirava um grande pomar semelhante, porém mais extenso,
àquele onde me permitiram provar os frutos celestiais. Estava bem à mão
daqueles que despertavam e, é claro, de qualquer outra pessoa que o quisesse
usar.
Ocorreu-me que Edwin estava gastando muito do seu tempo conosco, talvez
com sacrifício de seu próprio trabalho. Mas disse-me êle que o que fazia neste
momento era, sob muitos aspectos, o seu trabalho costumeiro — ajudar as pessoas
a acostumarem-se em seu novo ambiente, assim como ajudar os que começavam a
desfazer-se de suas velhas crenças religiosas e a afastar-se da sufocante
mentalidade das comunidades ortodoxas. Folguei em saber disso, pois
significava que êle continuaria a ser o nosso cicerone.
Agora, aqui fora, surgiu a seguinte questão: deveríamos continuar com os
mantos espirituais, ou deveríamos retornar à nossa velha indumentária? No
tocante a Rute, nem quis ouvir falar em tal, declarando-se perfeitamente
satisfeita assim como estava, e ainda nos perguntou se haveria roupas terrenas
melhores do que aquelas. Em face de tais argumentos, submetemo-nos. Mas, e Edwin
e eu? Meu amigo havia retomado sua batina terrestre apenas para me fazer
companhia e me deixar à vontade. Decidi então ficar como estava — em trajos
espirituais.
Em caminho conversávamos a respeito das várias idéias terrenas
referentes à aparência pessoal dos espíritos. Rute mencionou a palavra asas, associando-a a seres angélicos e imediatamente
concordamos que tal idéia era absolutamente absurda. Não poderia haver meio de
locomoção mais desajeitado e solene do que esse. Creio que os artistas dos tempos
antigos são os maiores responsáveis por esta noção tão diferente da realidade.
Presume-se que julgavam essencial aos espíritos algum meio de locomoção, e que
o método terreno de usar pernas era mundano demais para ser admitido, mesmo
como remota possibilidade. Não tendo nenhum conhecimento sobre o poder do
pensamento aqui, e de sua ação direta nos nossos próprios movimentos, eles
recorriam ao único meio de locomoção através do espaço, que conheciam então —
as asas. Será que ainda há pessoas na terra que crêem realmente que somos
aparentados com os pássaros?
Não tínhamos ido muito longe, quando Edwin pensou que talvez gostássemos
de ir à cidade, que podíamos avistar não muito adiante. Digo "não muito
adiante", mas não se deve pensar que a distância aqui tenha algum
significado. É evidente que não! O que quis dizer é que a cidade estava
suficientemente perto, para a visitarmos sem fazer qualquer desvio da nossa
direção geral. Rute e eu logo concordamos que gostaríamos de partir para lá,
visto que a cidade espiritual seria uma nova revelação para nós.
Surgiu então a pergunta: devíamos andar ou empregar um método mais
rápido? Ambos achávamos que seria interessante experimentar o que o poder do
pensamento pode fazer, mas, como aconteceu anteriormente, e em outras circunstâncias,
não sabíamos de que maneira pôr essas forças em ação. Edwin nos informou que
uma vez conseguido este simples processo de pensar, nunca mais teríamos
dificuldades no futuro. Em primeiro lugar, era necessário ter confiança; e em
segundo, a nossa concentração de pensamento não po-
deria ser feita sem
vontade. Para usar uma expressão terrena, "nós nos desejamos" lá, e,
lá nos achamos! No início talvez seja necessário certo esforço consciente; mas
depois, podemos mover-nos para qualquer parte, quase sem pensar, pode-se dizer!
Voltamos aos métodos terrenos, quando desejamos sentar-nos, andar, ou executar
ações já familiares e nem percebemos qualquer indício de esforço para realizar
o menor dos nossos desejos. O pensamento passa tão rapidamente pela nossa
mente, que nem nos damos conta dos muitos movimentos musculares envolvidos
nesse processo: eles passam a ser uma segunda natureza. É assim precisamente o
que acontece aqui. Pensamos apenas que gostaríamos de estar em tal lugar, e já estamos lá. Preciso, é claro, esclarecer que
nem todos os lugares estão abertos a nós. Há muitos reinos onde não nos é dado
entrar, a não ser em circunstâncias muitos especiais, e somente se o nosso
progresso o permitir. Isso entretanto, não afeta o método de locomoção aqui,
mas meramente nos delimita certas direções bem definidas.
Uma vez que desejávamos estar juntos, perguntei a Edwin se não seria
mais prático os três terem o mesmo pensamento e fixar a mente na mesma
localidade. Ao que êle respondeu haver vários fatores a serem observados nesse
particular. Primeiro, era que, sendo esta a nossa tentativa inicial de locomoção
mental, êle ficaria de certa forma tomando conta de nós. Depois, deveríamos, automaticamente permanecer em contacto uns
com os outros, visto que assim o tínhamos desejado. Esses dois fatos já eram
garantia suficiente de uma chegada conjunta e a salvo ao local do nosso
destino. Quando adquiríssemos suficiente prática nesses métodos não haveria
mais dificuldades.
Não nos devemos esquecer que o pensamento é instantâneo, e não há
possibilidade de se perder em espaço ilimitado. Tive experiência disso
imediatamente após o meu falecimento, mas nessa ocasião eu me havia movido relativamente devagar e com os
olhos firmemente fechados. Edwin sugeriu então que, para gozarmos desse
divertimento agradável, tentássemos uma experiência sozinhos. Assegurou-nos que
nada de mau nos
adviria, em qualquer circunstância. Propôs que Rute e eu nos projetássemos a um
pequeno agrupamento de árvores, cerca de um quarto de milha distante — em
medidas terrenas. Sentamo-nos na grama, a contemplar o nosso objetivo, e Edwin
disse-nos que se ficássemos nervosos, poderíamos dar-nos as mãos. Rute e eu
devíamos ir sós, enquanto êle permaneceria no gramado. Teríamos apenas que nos
imaginar ao pé daquelas árvores. Olhamo-nos divertidos, ambos imaginando o que
iria acontecer, e nenhum tomava a iniciativa. Estávamos assim hesitantes,
quando Edwin disse: "Parti!" Sua exclamação deve ter fornecido o
necessário estímulo, pois peguei a mão de Rute, e logo depois nos achamos de pé
sob as árvores!
Olhamo-nos, se não
com espanto, pelo menos com algo muito semelhante. Lançando o olhar para onde
tínhamos deixado Edwin, lá o vimos acenando com a mão. Foi então que algo
estranho aconteceu. Ambos vimos à nossa frente, o que nos pareceu um clarão.
Não era ofuscante, nem nos amedrontou. Apenas chamou a nossa atenção, como
acontece com o sol ao surgir detrás das nuvens. Iluminou um pequeno espaço
diante dos nossos olhos e ficamos imóveis, cheios de ansiedade pelo que iria
acontecer. Então, claramente, e sem sombra de dúvida, ouvimos — ou com os
ouvidos, ou com a mente, não posso dizer — a voz de Edwin indagando se havíamos
gostado da breve viagem, e que voltássemos como tínhamos vindo. Ambos
comentamos o que víramos, tentando determinar se era realmente Edwin que havia
falado. Mal tínhamos demonstrado a nossa perplexidade, e ouvimos outra vez a
voz de Edwin, assegurando que nos ouvira enquanto procurávamos esclarecer
aquele fato! Ficamos tão jubilosos e admirados, que resolvemos voltar imediatamente
para perto de Edwin e exigir uma explicação. Repetimos o processo, e lá nos
achamos outra vez, sentados ao lado do nosso amigo, que ria feliz com a nossa
estupefação.
Já êle se preparara para o ataque — e nós o bombardeamos com perguntas
— e contou então, que nos reservara essa surpresa de propósito. AH estava, disse êle, outro exemplo do
pensamento concreto. Se nos podemos mover pelo poder do pensamento, segue-se
que também poderemos enviar os nossos pensamentos por si sós, livres de toda
idéia de distância. Quando focalizamos os nossos pensamentos em alguma pessoa
no mundo espiritual, sejam eles na forma de mensagem definida, ou apenas de
natureza afetuosa, atingirão o seu objetivo, sem sombra de dúvida; é o que
acontece no mundo espiritual. Como acontece, não estou preparado para dizer. É mais uma das coisas que
aceitamos como são e nos rejubilamos com elas.
Até aqui, tínhamos usado os órgãos da fala para conversar com alguém. "Era quase natural e não lhe demos
maior importância. Não tinha ocorrido a Rute ou a mim que houvesse aqui um meio
de comunicação à distância. Não estávamos mais cerceados pelas limitações
terrenas, e no entanto até agora não víramos nada que substituísse o usual
método de intercomunicação terrena. Essa ausência total devia nos ter preparado
para o inesperado.
Apesar de podermos assim enviar os nossos pensamentos, não se deve supor
que a nossa mente permaneça como um livro aberto para todos lerem.
Absolutamente. Podemos, se quisermos, guardar deliberadamente os nossos pensamentos
para nós mesmos; se os deixamos vagar ociosamente, então, sim, poderão ser
lidos por outrem. Uma das primeiras coisas a compreender aqui, é que o
pensamento é concreto, pode criar e construir, e o nosso imediato esforço,
portanto, é colocar os pensamentos sob controle adequado. Mas, como tantas
outras coisas aqui, podemos nos ajustar logo às novas condições, se nos
dispusermos a isso; e nunca nos faltarão os mais dedicados auxiliares. Estes já
foram encontrados por mim e Rute, para nosso grande alívio e gratidão.
A esta altura Rute já estava impaciente para ir à cidade e insistiu com
Edwin para lá nos conduzir imediatamente. Desta forma, sem mais delongas,
erguemo-nos da grama e a uma palavra do nosso guia, partimos.
Ao nos aproximarmos da cidade, foi possível avaliar a sua enorme
extensão. Nem preciso dizer que era totalmente diversa, de tudo que jamais
víramos. Consistia de grande número de majestosos edifícios, rodeados de
magníficos jardins e árvores, onde brilhavam, aqui e acolá, espelhos de água,
límpida como cristal, refletindo, além das cores já conhecidas da terra,
outras mil tonalidades jamais vistas.
Nem se pode imaginar que esses jardins tivessem a menor semelhança com
os da terra, que por melhores e mais belos que sejam, ficam a perder de vista,
em comparação com esta riqueza de perfeito colorido, e perfumes celestiais. Caminhar
pelos gramados em meio a tal profusão de beleza natural, nos deixava
fascinados. Nunca pensara que as belezas do campo, tais como as conhecia,
pudessem ser assim ultrapassadas.
Minha mente se transportara às ruas estreitas e às calçadas apinhadas
da terra; prédios amontoados porque o espaço era valioso e caro; o ar, pesado e
poluído, pela grande cadeia de tráfego; tinha pensado na pressa e no tumulto,
em toda a agitação da vida comercial e na excitação de prazeres passageiros.
Não tinha a menor idéia de uma cidade de beleza eterna, tão diferente de uma
cidade terrena quanto a luz do dia o é da noite escura. Viam-se largas ruas de
gramados verdes como esmeraldas, partindo, como os raios de uma roda, do
edifício, que era o centro de toda a cidade. Um grande raio de luz purificada
descia sobre a cúpula e instintivamente sentimos, sem que Edwin o dissesse,
que neste templo podíamos erguer, à Grande Fonte de todas as coisas, as nossas
graças, e que ali acharíamos nada menos que a Glória de Deus na Verdade.
Comparados com as estruturas terrenas, os edifícios não eram muito
altos, mas apenas extremamente amplos. É impossível descrever de que materiais
se compunham, por serem essencialmente espirituais. A superfície é lisa como
mármore, e tem a delicada consistência e a transparência do alabastro,
ao mesmo tempo que cada prédio emite uma corrente de luz da mais pálida
tonalidade. Alguns eram esculpidos com desenhos de folhagens e flores, outros,
quase sem adornos, usando como tal apenas seu estilo meio clássico. Sobre tudo
isso derramava-se ininterruptamente a luz celestial, de maneira que não havia
sombras em parte alguma.
Esta cidade, devotada ao cultivo do saber, ao estudo e prática das
artes, e aos prazeres de todo este reino, não é exclusividade de ninguém,- mas
livre para todos a gozarem, com iguais direitos. Aqui é possível prosseguir qualquer
das agradáveis e profícuas ocupações começadas no plano terrestre. Aqui,
também, muitas almas podem se entregar a amenas diversões que lhes tinham sido
negadas por várias razões, enquanto encarnadas.
O primeiro departamento era dedicado à arte da pintura. De grandes
proporções, continha uma longa galeria em cujas paredes eram exibidas todas as
grandes obras-primas conhecidas do homem. Estavam dispostas de tal maneira, que
se poderia acompanhar cada passo do progresso terreno, a começar da Antigüidade,
até os dias atuais. Todos os estilos pictóricos, colhidos em todos os pontos da
terra, estavam aqui representados.
Grande número de pessoas se moviam ao longo da galeria, muitos seguindo
a própria fantasia. Mas havia grupos mais sérios, atentos às palavras de
experimentados mestres, que apontavam as várias fases da história da Arte,
ilustrada nas paredes; e suas explicações eram tão claras e interessantes que
ninguém podia deixar de as compreender.
Reconheci muitas daquelas pinturas, pois que víramos seus originais, nas galerias da
terra. Qual não foi a nossa surpresa quando Edwin declarou que os que tínhamos
visto na terra não eram, absolutamente os originais. Agora é que estávamos vendo pela primeira vez os originais. Tínhamos visto na terra apenas reproduções, que, por sua vez, eram
deterioráveis sob a ação do tempo, do fogo, da água, etc.
Mas aqui deparávamos com os resultados diretos dos pensamentos do
pintor, criados no etéreo antes de êle transferir essas idéias à tela.
Podia-se observar muitos casos em que a pintura terrena não correspondia
ao que o artista tinha em mente. Esforçava-se por reproduzir sua concepção
exata, mas devido às limitações físicas, essa exata concepção lhe escapava. Em alguns casos faltavam os pigmentos
necessários, quando, ao iniciar, o artista fora incapaz de achar ou criar a
exata tonalidade desejada. Mas, apesar
de incapaz fisicamente, sua mente sabia precisamente o que êle desejava
fazer. Havia criado em seu espírito os
resultados que agora podíamos ver, ao passo que na tela material havia falhado.
Essa foi a grande diferença observada
nos quadros, ao compará-los com os que tive oportunidade de ver na terra. Outra
grande diversidade — e a mais importante — era o fato de que todos esses
quadros estavam vivos.
É impossível dar uma idéia disso; é preciso
ver, para poder compreender. Posso apenas sugerir uma idéia. Os quadros, fossem
paisagens ou retratos, nunca eram planos, isto é, nunca pareciam pintados sobre
uma tela, mas possuíam toda a perfeição do relevo. 0 tema salientava-se quase
como se fosse um modelo - um modelo de onde se pudessem apanhar todos os
elementos que constituem o tema de um quadro.
Sentia-se que as sombras eram verdadeiras sombras, projetadas por
verdadeiros objetos. As cores
brilhavam com vida, mesmo nas primeiras obras anteriores ao verdadeiro
progresso.
Veio-me à mente um problema, para cuja solução naturalmente recorri a
Edwin. Era o seguinte: como seria indesejável e talvez impraticável expor nas
galerias todos os quadros que
emanassem do plano terrestre, qualquer idéia de preferência baseada em
julgamento de outros não me parecia de acordo com a lei espiritual. Neste caso,
que sistema seria usado para a seleção de pinturas a serem expostas?
Disseram-me que essa era uma pergunta freqüente entre os visitantes das
galerias. A resposta é que, até que um artista, bom ou mau, ou apenas medíocre,
se ajuste à nossa vida, é desprovido de qualquer ilusão terrena - se
alguma vez a teve — a
respeito de seu trabalho. Geralmente estranha timidez se manifesta, estimulada
pela imensidão e a superlativa beleza deste reino. De maneira que no fim, o
problema é mais de escassez do que de superabundância.
Quando pudemos contemplar os retratos de tantos homens e mulheres, de
fama universal, tivessem eles vivido em épocas longínquas ou nos dias
presentes, eu e Rute experimentamos uma sensação estranha, ao pensarmos que
éramos agora habitantes do mesmo mundo, e que, como nós, eles estavam bem
vivos, não eram apenas meras figuras históricas das crônicas do mundo
terrestre.
Em outras partes do mesmo departamento havia salas onde os estudantes de
arte podiam aprender tudo o que há para se aprender. A alegria desses
estudantes, livres de suas limitações corporais e terrenas, era imensa. Aqui, a
instrução é fácil, e a aquisição e aplicação do saber igualmente fáceis, para
os que desejam aprender. Desaparecem todas as lutas do estudante para superar
as dificuldades terrenas da mente e das mãos, e a marcha para a proficiência é,
conseqüentemente, uniforme e rápida. A felicidade de todos os estudantes que
víamos, era contagiante, pois não há mais limites para os seus esforços, desde
que aquele espantalho da vida terrena — o tempo que voa —- e todos os pequenos empecilhos da existência foram
abandonados para sempre. É pois para se admirar que dentro daqueles templos,
bem como em outros da cidade, os artistas estejam desfrutando das horas
douradas de sua recompensa espiritual?
Fazer um estudo
prolongado dos quadros da galeria seria muito exaustivo, além disso, no
momento, queríamos apenas ter uma visão geral de tudo o que havia aqui; mais
tarde, se quiséssemos, poderíamos voltar e admirar as coisas que mais nos
agradaram. Assim pensávamos os três. Não nos detivemos pois, nas galerias, por
muito tempo e aceitamos a sugestão de Edwin de passar para outro imenso
departamento.
Era o edifício de
literatura, e continha todas as obras dignas desse nome. Seu interior era
formado de salas, menores que as das pinturas. Edwin conduziu-nos a um espaçoso
57
recinto, onde estavam
as histórias de todas as nações sobre a face
da terra. Para qualquer pessoa que tenha conhecimentos da história terrestre,
os volumes que enchem as prateleiras desta seção seriam altamente proveitosos.
O leitor poderia ler pela primeira vez, a verdade sl respeito da história de seu país. Fingir e mentir é impossível, porque
nada, a não ser a verdade, pode ter entrada nestes reinos.
Desde então voltei muitas vezes àquela biblioteca e passei proveitoso
tempo entre seus inúmeros livros. Aprofundei-me
particularmente em História e, o que vi espantou-me. Naturalmente encontraria
uma História escrita da mesma maneira conhecida por nós, mas havia uma
diferença essencial: é que agora eu teria pela frente toda a verdade acerca dos
fatos históricos. Isto era evidente,
mas fiz outra descoberta que a princípio me deixou atônito. Paralelamente às simples citações de atos de
pessoas notórias, de estadistas em cujas mãos esteve o governo de seus países,
de reis à frente de seus reinos, paralelamente a tais declarações, estava a verdade,
nua e crua, dos motivos que governavam e sustentavam esses atos — a verdade acima de qualquer dúvida. Muitos desses motivos eram elevados, e
muitos eram completamente vis; uns eram mal-interpretados e outros,
deturpados. Gravados indelèvelmente
nos anais do espírito, estavam as verídicas narrativas de milhares e milhares
de seres humanos que, durante sua jornada terrena haviam participado dos acontecimentos
de seu país. Alguns eram
vítimas de traição e vileza de outros; alguns também eram os causadores
dessa traição e vileza. Ninguém foi
poupado ou omitido. Lá estava tudo para
se ver — a verdade sem atenuantes, sem supressões. Os arquivos não respeitavam ninguém,
fosse rei ou plebeu, prelado ou leigo.
Os historiadores tinham apenas registrado a história verídica, tal como
era. Não se recorreu a enfeites, — nem a
comentários. Ela falava por si só. E
fiquei profundamente grato por algo: que essa verdade nos tivesse sido poupada
até agora, quando aqui estamos, agora, que nossa mente, de certo modo, está
preparada para receber tais revelações.
Até aqui só me referi à história política, mas aprofundei-me também na
da igreja, e as revelações nesse setor não foram muito melhores. Eram de fato,
piores, considerando-se em Nome de quem tantas ações diabólicas foram
cometidas, e, por homens que, externamente professando servir a Deus, eram
apenas instrumentos de outros tão baixos quanto eles mesmos.
Edwin havia me prevenido disso, mas nunca julgara a que ponto de
veracidade chegariam os fatos. Os supostos motivos apresentados pelos nossos
livros de história na terra estavam bem longe dos verdadeiros.
Apesar desses volumes testemunharem contra os perpe-tuadores de tantos
feitos escusos na História, também testemunhavam ações nobres e elevadas. Não
estavam lá especificamente para atacar ou defender, mas porque a literatura se
tornou parte do material da vida humana. Se há prazer em ler, não deve haver
então livros para esse fim? Podem não ser exatamente iguais aos livros
terrenos, mas estão de acordo com tudo o mais aqui.
Passamos através de muitas outras salas, onde estavam, à disposição de
quem quisesse, obras sobre todo e qualquer assunto imaginável. E talvez um dos
mais importantes assuntos fosse o que se chama de ciência psíquica. Fiquei boquiaberto
com a riqueza da literatura sob essa. denominação. Nas prateleiras havia livros
negando a existência de um mundo espiritual e negando também a realidade da
volta do espírito. Muitos desses autores tiveram desde então a oportunidade
de rever suas próprias obras — mas com sentimentos bem diferentes! Eles mesmos haviam se tornado
testemunhas vivas contra o conteúdo de seus próprios livros.
Ficamos muito impressionados com as belíssimas encadernações dos
livros, com o material em que eram impressos e com o estilo da impressão. Pedi
de novo informações a Edwin e foi-me explicado que o processo de reprodução de
livros no mundo espiritual não é o mesmo que no setor da pintura. Eu mesmo vira como a verdade fora suprimida
naqueles volumes, ou com intenção deliberada ou por verdadeira ignorância dos
fatos. No caso dos quadros o artista tinha desejado retratar a verdade, mas
fora incapaz de o fazer, se bem que não por sua própria culpa. Portanto, não
perpetuou inverdades, pelo contrário, sua mente tinha anotado o que era
absolutamente real. Um autor dificilmente escreveria um livro com intenções
diametralmente opostas às que êle expressa. Quem, pois, escreve um livro com
as verdades, aqui no espírito? O seu próprio autor —
quando vem para o mundo espiritual. E êle se sente feliz
por poder fazê-lo. Fica sendo o seu trabalho, e por meio dele pode ganhar a
melhoria de sua alma. Não terá dificuldades em relação aos fatos, visto que
eles, aqui, estão em sua frente e prontos a serem registrados, mas, desta vez, dentro da verdade.
Não há necessidade de dissimular, o que de fato seria inútil.
Quanto à impressão de livros, não há na terra
máquinas impressoras? É claro que
sim! E o mundo espiritual não pode
estar menos aparelhado a esse respeito do que os seres terrestres, só que aqui
os métodos são totalmente diversos.
Temos peritos que são artistas no seu trabalho -e um trabalho que é
feito com amor. O método de reprodução aqui é somente um processo mental, como
todo o resto, e o autor e impressor trabalham juntos em completa harmonia. Os
livros que resultam desta cooperação são verdadeiras obras de arte, belíssimas
criações que, à parte o conteúdo literário, são encantadoras à vista. A encadernação é outro processo de peritos,
realizado também por artistas, com materiais jamais encontrados sobre a
terra. Mas os livros assim produzidos
não são coisas mortas que requeiram uma concentração de toda a mente sobre
eles. Vivem tanto quanto os quadros que
vimos anteriormente. Apanhar uma obra e
começar a lê-la significa também perceber com a mente — num processo impossível
na terra — todo o fato narrado, seja ciência, história ou arte. O livro, uma
vez nas mãos do leitor, instantaneamente responde, quase da mesma maneira como
as flores ao nos aproximarmos delas. A
intenção é diferente, é claro.
A imensa quantidade de livros que havia era para o uso de todos, sem
restrições, regras impertinentes ou regulamentos. Tendo toda essa riqueza de
sabedoria à nossa volta, fiquei abismado com a minha própria ignorância, e Rute
sentiu o mesmo. Edwin porém, assegurou-nos que não nos devíamos assustar com
isso visto que tínhamos à frente toda a eternidade. Essa lembrança foi
confortadora, pois era um fato de que sempre nos esquecíamos. Leva tempo para
se perder aquela sensação de instabilidade, de transitório, que associamos à
vida terrena. Em conseqüência, julgamos que é necessário ver tudo, o mais
depressa possível, embora o fator tempo tenha deixado de existir.
A esta altura Edwin achou que devia mostrar a Rute algo que a
interessasse em particular e levou-nos, assim, ao departamento de tecidos. Era
igualmente espaçoso, mas os com-partimentos eram de maiores proporções do que
aqueles que acabáramos de ver. Aqui existe uma infinidade de belos materiais,
assim como tecidos executados há milhares de séculos, e dos quais pouca coisa
restou na terra. Era possível admirarmos então, tecidos sobre os quais lemos
nas histórias e crônicas, nas descrições de cerimônias de gala, e em ocasiões
festivas. E, por mais que se falem da mudança de estilo e gostos que se vêm
sucedendo através das idades, o mundo terreno tem perdido suas cores e torna-se
cada vez mais sombrio e melancólico.
O colorido de muitos dos tecidos era simplesmente soberbo, enquanto que
os magníficos desenhos nos revelaram artes há muito desaparecidas da terra.
Mesmo perecíveis na terra, eles aqui são eternos. Novamente podíamos observar o
progresso gradual conseguido no desenho e fabricação dos tecidos e devemos
admitir que, a julgar pelo que víamos, esse progresso se verificou até certo
ponto, quando então se deu um movimento de regressão. Falo, evidentemente, de
modo geral.
Pode-se pensar que o
que víramos até então não passava de museus celestiais, contendo, é verdade,
amostras magníficas,
impossíveis de serem
encontradas na terra, o que não os impedia de continuar a ser museus.
Entretanto, na terra, os museus são lugares bem tristonhos. Têm aroma de bolor
e preservativos químicos, visto que os objetos devem ser protegidos da
deterioração e extinção. E precisam ser protegidos contra o próprio homem, por
meio de insípidas redomas de vidros. Ao passo que aqui não há restrições. Todas
as coisas dentro destas paredes são livres e ao alcance de todas as mãos. Não
existe ar bolorento, mas sim, a beleza dos objetos, que emitem sutis perfumes,
enquanto jorra de todos os lados a luz celeste, para aumentar a glória das
manufaturas dos homens. Não, estes não são museus, longe disso, são templos,
nos quais nós, espíritos, estamos cônscios das graças eternas que elevemos ao
Senhor, por nos dar tão ilimitada felicidade, num mundo de que tantos na terra
negam a existência. Eles substituiriam tudo isso com o quê? Não o sabem! Dizem
que há muitas e muitas belezas na terra, e que nós no espírito nada temos!
Talvez seja outra das razões por que somos tão lamentados quando passamos a
espíritos: porque deixamos para trás tudo que era lindo, para entrar no nada —
um vácuo celeste. Tudo que é belo pertence, portanto, exclusivamente ao mundo;
a inteligência do homem nada vale, quando êle aqui chega, pois que nada há em
que ocupá-la! Apenas vazio! Não nos admiramos que as realidades e a imensa
riqueza do mundo espiritual provoquem um choque de revelação para aqueles que
esperavam uma eternidade do Nada celestial!
É essencial compreender que toda tarefa ou ocupação dos habitantes
destes reinos, é perfeitamente voluntária, realizada apenas pelo simples
desejo de a fazer e nunca com uma atitude de obrigação, "quer queiram,
quer não"! Não há coisas, como essa de ser forçado a algum serviço! Nunca
a má vontade é sentida ou expressa. Mas isso não quer dizer que se deseje o
impossível. Podemos ver o resultado de uma ou outra ação, — mas se nós não podemos, há outros mais sábios que podem
— e saberemos então, se devemos começar a nossa tarefa ou suspendê-la por
enquanto. Nunca nos faltam conselho e ajuda. Podemos lembrar minha própria
sugestão, no início, de tentar uma comunicação com a terra, para acertar alguns
assuntos referentes à minha vida, tendo Edwin aconselhado que procurasse mais
tarde orientação a respeito. É pois a verdade dizermos que o traço
predominante aqui é o desejo de fazer e de servir. Menciono isto para que se
compreenda bem o salão especial onde Edwin nos levou, depois do de tecidos.
Era, para todos os efeitos, uma escola, onde as almas que não tiveram o
bem terreno de aprender, pudessem se equipar intelectualmente.
Saber e aprender, educação ou erudição, não representam valores
espirituais, e a incapacidade de ler e escrever não significa falta de
qualidades. Mas quando uma alma passa para esta vida, quando ela vê a grande e
larga estrada espiritual abrir-se-lhe à frente, com oportunidades múltiplas,
vê também que o saber a ajudará no caminho espiritual. Poderá não saber ler.
Neste caso, devem esses esplêndidos livros permanecer para sempre fechados a
alguém, agora que tem a oportunidade de ler, conquanto lhe falte habilidade?
Talvez deva-se perguntar: mas não disseram que não é preciso saber ler no mundo
espiritual? Não há aqui uma espécie de percepção mental a ser colhida dos
livros, sem auxílio material de palavras impressas? A mesma pergunta pode ser
feita a respeito de quadros e de tudo o mais, aqui. Por que a necessidade de
algo tangível? Se seguirmos esta linha de critério ela nos levará até aquele
estado de vacuidade que acabei de mencionar.
O homem incapaz de ler sentirá, pela mente, que há algo dentro do livro que tem nas mãos, mas não ficará
sabendo, instintivamente, ou de outra maneira qualquer, o seu conteúdo. O que
sabe ler, se achará imediatamente en rapport com as idéias que o autor escreveu, e o livro, assim, se comunica com
aquele que o lê.
Não é necessário poder escrever, e muitos que não o sabiam antes de
chegar aqui, não se deram ao trabalho de preencher essa lacuna.
Deparamos nesta escola com muitas almas ocupadas em seus estudos e
divertindo-se bastante. Adquirir conhecimentos aqui não é enfadonho, porque a
memória trabalha perfeitamente — isto é, infalivelmente — e os poderes da
percepção mental não são tolhidos ou confinados por um cérebro físico. Nossas
faculdades de compreensão são aguçadas e a expansão intelectual é firme e
certa. A escola é o lar das ambições realizadas, para a maioria dos estudantes.
Conversei com vários deles e cada um me contou que estudava agora o que sempre
ambicionara na terra e cuja oportunidade lhe havia sido "negada no mundo,
por razões já bem nossas conhecidas. Alguns não tiveram tempo, devido a
atividades comerciais, ou então a luta pela vida tinha absorvido os meios necessários.
A escola era organizada muito confortavelmente e, é claro, não havia nem
sombra de regulamentos. Cada estudante seguia seu curso independente de
qualquer outra pessoa. Sentado confortàvelmente, ou nos esplêndidos jardins,
começava o que queria, terminava, e, quanto mais se aprofundava nos estudos,
mais interessado e fascinado se tornava. Posso falar disto por experiência
própria, visto que tanto estudei na enorme biblioteca, desde que aqui cheguei.
|ji Ao deixarmos a escola, Edwin sugeriu um descanso à sombra das árvores,
mas isso foi apenas uma maneira de dizer, visto que aqui não se sofre fadiga
corporal. Entretanto, não temos, infindàvelmente, a mesma ocupação: isto
significaria monotonia, coisa que não há aqui. Mas Edwin conhecia as emoções
contraditórias que surgem nas mentes dos recém--chegados, e assim fizemos uma
pausa, antes de novas explorações.
VI.
Várias Questões Respondidas
Edwin nos contou que um grande número de pessoas, assim que passam a
espírito, sentem arder dentro de si tamanho entusiasmo ao lhes ser revelada a
nova vida, que querem voltar imediatamente à terra, para contar ao mundo
as maravilhas daqui. Explicou-me ainda algumas das dificuldades que se
opunham à minha intenção de voltar também.
Outra tendência muito natural é fazer inúmeras perguntas a respeito
desta vida em geral, e notou que, neste particular, tanto Rute como eu havíamos
demonstrado uma moderação fora do comum! Confessei entretanto, que, já que
tocara no assunto, havia muita coisa que eu e Rute desejávamos saber, mas a
dificuldade estava por onde começar.
Tínhamos deixado que os nossos passeios apresentassem seus próprios
problemas, para serem solvidos por Edwin, mas havia considerações de natureza
geral que surgiam à contemplação da terra espiritual como um todo. Uma das
primeiras que me vieram à mente foi a extensão deste reino. Alongava-se a
perder de vista, e isto já por si era maravilhoso. Mas haveria um limite?
Estendia-se êle muito além do que os nossos olhos podiam alcançar? Se havia um
fim, poderíamos vê-lo com os próprios olhos?
Certamente que havia
um limite, explicou Edwin, e podíamos vê-lo a qualquer hora que quiséssemos.
Além deste, havia ainda outros reinos. Cada pessoa, ao passar a espírito,
entrava no reino para o qual se preparara na terra — a este apenas, e a nenhum
outro. E Edwin começou por descrever--nos esta terra como a terra da grande
colheita — a colheita daquilo que cada um semeou na terra. Podíamos julgar por
nós mesmos, se a colheita era boa ou má. Descobriríamos que há muitas
infinitamente melhores, e outras piores. Enfim, há outros reinos, muito mais
belos do que aquele em que estávamos agora vivendo, felizes; reinos de infinita
beleza onde só poderemos penetrar quando alcançarmos esse direito, quer como
visitantes, quer como habitantes. Porém, apesar de não podermos lá entrar, as
almas gloriosas, seus habitantes, podem vir a reinos de menor beleza celestial,
e visitar-nos. Edwin já vira várias delas, e, esperávamos também fazê-lo.
Vinham freqüentemente, aqui, para dar conselhos, ajudar, conceder recompensas e
louvores; e não havia dúvida de que o meu problema podia ser submetido à
orientação de uma dessas almas-mestres.
Em certas ocasiões, também, esses seres transcendentais fazem visitas
especiais, quando o reino todo celebra um grande acontecimento, tal como o Natal
e a Páscoa, por exemplo. Rute e eu ficamos surpresos com isto, visto termos
julgado ambas as datas essencialmente da terra. Mas era a maneira de celebrá-las
e não as festas em si, que são exclusivas da terra. Nos reinos espirituais,
tanto o Natal como a Páscoa são considerados aniversários; o primeiro, do
nascimento para o mundo terreno, o segundo, do nascimento para o mundo
espiritual. Neste reino as duas celebrações coincidem com as da terra, visto
que há um elo espiritual maior entre os dois mundos, o que não aconteceria se
as festividades fossem realizadas independentemente de estação. Não é assim,
entretanto, nos reinos superiores onde leis de diferente natureza estão
agindo.
No plano terrestre fixou-se uma certa data para o Natal, durante muitos
séculos. A época exata do primeiro Natal já se perdeu, e é impossível
determinar agora, com precisão, quando se deu. Mesmo que fosse possível, é tarde
demais para fazer alterações, uma vez que já se estabeleceram a tradição e a
prática. A festividade da Páscoa é móvel — um costume estúpido, visto que às
vezes a data escolhida não tem relação alguma com a original. Não somos de
maneira alguma dependentes da terra nestes assuntos, mas cooperamos com a terra em nossas
celebrações conjugadas. Os reinos superiores têm suas razões boas para se
afastarem dessa ordem. Tais razões não nos dizem respeito, até que passemos a
esses elevados reinos.
Além destas duas festas pouco temos em comum com a terra. As outras são
em geral eclesiásticas e sem significado espiritual, e provêm de doutrinas
religiosas sem aplicação no mundo dos espíritos.
A festa da Epifania, por exemplo, é baseada numa colorida história, e
era celebrada pelo povo, nos velhos tempos, de maneira secular e religiosa.
Agora é apenas religiosa e de pouquíssima importância aqui. A festa de
Pentecostes é outro
exemplo da cegueira
da Igreja. O Espírito Santo — para usar a frase da Igreja — tem descido e estará descendo sobre todos os
que são dignos de o receber. E não numa ocasião específica, mas sempre.
Tanto eu como Rute estávamos muito interessados em saber como o Natal
era celebrado nestes reinos, visto que na terra, além de alguns serviços
religiosos, a festa da Natividade se transformou num negócio secular; seu
característico principal era o excesso de comidas e bebidas. Edwin nos contou
que em espírito podemos experimentar o mesmo grau de felicidade que na terra,
quando por exemplo a felicidade é o resultado ou expressão de bondade, quando
nossas festividades são misturadas com a lembrança dos grandes dias que
estamos celebrando. Os que desejam, — e há muitos — podem decorar suas casas
com folhagens, como foram acostumados na terra. Unimo-nos a alegres companhias,
e, se se considera que a comemoração não estará completa sem haver algo para
comer, por que não teríamos também uma superabundância das mais perfeitas
frutas, de que já falei, para delícia dos mais exigentes?
Mas falei apenas do lado mais pessoal da festa; é nesta época que
recebemos a visita daqueles seres perfeitos das regiões superiores, onde está o
Ser cujo nascimento festejamos. E basta vermos essas belas almas passarem,
para nos sentirmos cheios de exaltação espiritual, que perdura longo tempo,
mesmo depois que elas voltam ao seu alto reino.
Na Páscoa temos visitas similares, mas há um muito mais alto grau de
júbilo, porque para nós a passagem para o mundo espiritual, pela própria
natureza das coisas, é de maior significação. De fato, quando deixamos o plano
mundano tendemos a esquecer o nosso aniversário terreno, e é novamente por
meio de ligações com a terra, se é que as temos, que nos recordamos dele.
Detive-me um pouco neste assunto para tentar mostrar que não vivemos num
estado febril de emoção religiosa por toda a eternidade. Somos humanos, apesar de tantas pessoas
na terra julgarem o contrário. Tais indivíduos estarão um dia nas nossas condições, e nada causa mais humildade do que ver a realização daquilo que um dia foi a nossa firme e decidida opinião.
Afastei-me um pouco do nosso primeiro tópico, mas é que a nossa conversa vai de um assunto a outro, sem nos apercebermos que estamos distantes do início.
Mencionei apenas de passagem os reinos superiores. E que dizer das esferas inferiores a que Edwin se referiu, quando falei dos limites deste reinado? Podíamos visitá-las a qualquer hora que desejássemos. Pode-se sempre ir a reinos inferiores ao nosso, mas nunca a um mais elevado. Mas não era aconselhável vagar por essas esferas baixas sem guia capaz, ou antes de receber ensinamentos adequados. Antes de nos informar melhor sobre esse assunto, Edwin aconselhou-nos a conhecer primeiro a nossa agradável terra.
E agora, vamos ao que constitui os limites precisos deste reino. Estamos acostumados à idéia da redondeza da terra e a ver diante dos olhos o horizonte distante. Ao contemplar o mundo espiritual devemos abandonar a idéia de distância que se pode calcular com os olhos, visto que ela desaparece, pela rapidez dos meios de locomoção. Qualquer sugestão de planura terrestre é dissipada pela quantidade de colinas e planícies onduladas.
Sendo a atmosfera cristalina, nossa visão não é limitada. Não somos obrigados a manter os pés no chão. Assim como nos podemos mover lateralmente, podemos fazê-lo verticalmente, como Edwin nos disse. E isto não nos tinha ainda ocorrido. Ainda estávamos acostumados aos nossos hábitos e limitações terrenas. Se podíamos afundar na água sem perigo, mas até com prazer, então, também, poderíamos subir ao ar com a mesma segurança e prazer. Rute não expressou desejo muito grande de o fazer — por enquanto. Preferia esperar, disse ela, até estar mais aclimatada. Eu também partilhava seus sentimentos, o que divertiu muito o nosso bom amigo.
Onde está o limite entre a terra e o mundo espiritual? No momento em que
faleci, como devem lembrar-se, eu estava perfeitamente consciente, e quando me
ergui do leito em resposta a um apelo fortíssimo, nesse mesmo instante já me achava no mundo dos espíritos. Os dois mundos devem,
pois, se interpenetrar. Mas ao afastar-me sob o apoio e orientação de Edwin,
não tinha noção de estar me movendo em alguma direção definida. Movimento, certamente que havia. Edwin mais
tarde me informou que eu passei através das esferas inferiores — e
desagradáveis — mas que, devido a autoridade de sua missão para ajudar-me a
passar ao meu reino, estávamos ambos protegidos de toda e qualquer influência
desagradável. Éramos, de fato,
completamente invisíveis a todos os que não pertencessem ao nosso plano ou aos
mais altos.
A transição de um
reino para outro é gradual, tanto no que se refere à aparência externa, como em
outros aspectos, de maneira que é difícil fixar em alguma localidade os limites
deles. Parecem fundir-se quase que imperceptivelmente um no outro.
Edwin propôs agora que, a título de ilustração prática, fôssemos ver um
desses limites que tanto nos intrigavam. Assim colocamo-nos sob sua orientação
experiente, e partimos.
Imediatamente nos achamos numa imensa planície gramada, mas ambos
notamos que a grama aqui não era tão macia sob os pés; de fato, à medida que
avançávamos tornava-se mais dura. O lindo verde-esmeralda desaparecia e tomava
uma aparência de amarelo sombrio, similar à grama terrestre depois de ser
escaldada pelo sol, quando lhe falta água. Não se viam flores, árvores ou
habitações, e tudo parecia triste e árido. Não havia sinal de vida humana, e
tudo parecia desaparecer debaixo dos nossos pés, ao mesmo tempo que a grama
desaparecia e pisávamos solo seco e duro. Notamos também que a temperatura
havia caído consideravelmente. Sumira todo o colorido belo e genial. Havia no ar
umidade e frio que
parecia grudarem-se a nós e às nossas almas. A pobre Rute agarrava-se ao braço
de Edwin, e eu não tenho acanhamento de admitir que fiz o mesmo, e com grande
prazer. Rute tremia visivelmente e parou de súbito, implorando que não fôssemos
adiante. Edwin passou os braços ao redor de nossos ombros assegurando-nos que
nada devíamos temer, visto que êle tinha o poder de nos proteger. Entretanto,
ele podia bem ver a profunda depressão e opressão que se apossara de nós, e,
por isso, docemente, fez-nos voltar, segurando-nos pela cintura; e uma vez mais
nos achamos sentados sob as belas árvores, rodeados de flores maravilhosas e
envolvidos numa atmosfera morna, para bálsamo das nossas aflições.
É supérfluo acrescentar que tanto eu como Rute ficamos satisfeitos por
estar de volta. Tínhamos ido apenas ao limiar das esferas inferiores, mas fora
suficiente para nos dar idéia do que havia além. Sabia que levaria tempo antes
de poder entrar lá, e pude perceber a sabedoria dos conselhos de Edwin.
Como estávamos falando dos limites espirituais, apesar de termos
suspenso temporariamente nossas explorações, não pude deixar de indagar a
respeito dos limites dos reinos superiores. Sabia que nada de desagradável
podia haver em relação a eles e sugeri que, à guisa de contraste e para apagar
a nossa enregeladora experiência anterior, pudéssemos talvez visitar a
fronteira pela qual passam os nossos visitantes. Não tendo havido objeções, partimos.
Achamo-nos de novo em gramados, mas com notável diferença. A grama era
infinitamente mais macia do que a do interior do nosso reino. O verde era ainda
mais brilhante, as flores mais abundantes e a intensidade de cores, perfume e
poder vivificante, ultrapassava tudo que jamais encontráramos. O próprio ar
parecia impregnado de tintas do arco-íris. Havia poucas residências no local,
mas atrás de nós podiam-se vislumbrar algumas das mais belas casas que jamais
víramos. Nelas viviam almas maravilhosas que, apesar de nominalmente
pertencerem ao nosso próprio reino, estavam, em virtude do seu progresso
espiritual, de seus dons particulares e trabalho, em contacto com os reinos
elevados, para os quais tinham inteira autoridade e poder de passar, em várias
ocasiões. Edwin prometeu-nos voltar a esse lugar, depois de termos visto a
cidade, e lá poderíamos discutir o meu trabalho futuro e o de Rute. Tinha
várias vezes indagado a mim mesmo em que espécie de trabalho espiritual me
ocuparia quando me familiarizasse com a nova vida e a nova terra.
Assim como sentíramos frio e opressão nas fronteiras das esferas
sombrias, sentíamos-nos agora presas de tal êxtase que quase não falávamos. Ao
caminharmos, banhados em esplendor, sentimos tamanha exaltação que me veio à
mente a descrição de Edwin, das visitas dos seres dos reinos superiores, e eu
quase pude sentir o que deveria experimentar quando recebesse uma dessas
visitas. Ali, de pé, tinha-se o desesperado desejo de lutar pelo progresso que
nos daria o direito de servir um daqueles habitantes da esfera, a cujas portas
agora estávamos.
Caminhamos um pouco
mais, mas não pudemos ir muito longe. Não havia barreiras visíveis, mas
sentíamos que, se prosseguíssemos, não poderíamos respirar. A atmosfera estava
se tornando rarefeita, e tivemos por fim que retroceder.
Podíamos ver muitas almas, envolvidas nas mais tênues vestimentas, cujas
cores suaves nem pareciam pertencer-lhes, mas flutuar à roda dos tecidos — se é
que se podia chamá-los de tecidos. Os mais próximos sorriam-nos de maneira tão
amistosa, que sabíamos não estarmos sendo intrusos. Alguns até acenavam.
Meu amigo explicou que todos estavam a par do nosso intuito e por isso
não se aproximavam, deixando-nos sozinhos gozar daquela experiência e absorver
calmamente as belezas e esplendores daquela terra limítrofe.
Afinal, relutantemente voltamos, e logo nos achamos em nosso primitivo
lugar, embaixo das árvores.
Sentíamo-nos
mais leves depois daquela visita, e tenho a certeza ae que até .Edwin, há tanto tempo espírito, o sentia também.
Por uns momentos não falamos, absortos em nossos próprios pensamentos, e quando afinal o fizemos foi para crivar o bom Edwin de perguntas. Seria enfadonho enumerá-las, por isso darei as suas respostas como um todo.
Primeiramente, o que se refere às esferas inferiores, cujo limiar nos havia deprimido. Visitei-as depois em companhia de Edwin e Rute, e fiz excursões por lá, como fazemos agora aqui. Portanto, não quero antecipar o que terei de relatar mais tarde.
Para visitar os planos inferiores é necessário possuir — para nossa proteção — certos poderes ou símbolos, que Edwin nos mostrou em seu poder. Tais lugares não são para os meros curiosos, e ninguém faria a tolice de ir lá sem um fim determinado. Os que o fazem sem autorização, são logo mandados de volta por almas bondosas, cujo trabalho nessa região é justamente desviar os outros dos perigos. Ê verdade que não vimos ninguém quando lá estivemos, mas, como nós, essas almas caridosas movem-se rapidamente.
No limite dos reinos superiores não há necessidade de tais sentinelas, pois a lei natural impede-nos de o atravessar. Quando alguém de um plano inferior viaja para o alto, é sempre munido de autorização, concedida a ela ou à alma que lhe serve de guia. Neste caso, tal autorização toma a forma de símbolos ou sinais, dados ao viajante, a quem será sempre dedicada tâda a assistência que possa necessitar. Muitos desses símbolos têm em si o poder de preservar o viajante dos efeitos sobrenaturais da atmosfera espiritual superior. Esta não afetaria a alma, é claro, mas uma pessoa desprevenida nessas regiões se acha na mesma situação de alguém na terra que enfrente a luz do sol ofuscante, depois de prolongada permanência em completa escuridão. No caso do sol terreno, porém, pode-se, depois de certo tempo, voltar ao normal mesmo sob a claridade ofuscante, o que não acontece nos reinos superiores. Aí não há tal poder de adaptação. O efeito perturbador será contínuo. Quando se tem de fazer
uma viagem a esferas superiores é imprescindível, em muitos casos, que um
habitante destes reinos coloque um manto protetor sobre seu protegido, da mesma
maneira que Edwin, num plano inferior, passou seus braços protetoramente à
nossa volta.
Isso é em substância o que Edwin nos contou em
resposta às múltiplas perguntas.
Sentíamo-nos agora suficientemente descansados e acedemos ao convite de
Edwin para continuarmos nossa inspeção da cidade.
Continua próximo Bloco III - A Música
Nenhum comentário:
Postar um comentário